MISS VIOLENCE

miss

É dia de festa na casa de uma família feliz:  O aniversário de 11 anos de Angelique.

O patriarca pede ao único jovem garoto da família para que tire uma foto dele junto das jovens mulheres da casa. Parece mesmo ali,  a pose para um retrato feliz.

Quem vê o quadro desta cena ainda nos primeiros frames de Miss Violence não imagina, nem de longe o que está por trás da cortina invisível que separa essa família da gente. Mas ainda estamos no início, então ainda tudo se põe e se supõe.

Enquanto o bolo é cortado na cozinha pela mãe e pela filha mais velha, a música toca e o pai baila com a aniversariante no meio da sala no que parece ser um clima de festa e descontração.  Tudo parece ser mecanicamente calculado durante essas primeiras cenas.

E como se já quisesse preparar o público para o que vem pela frente, a aniversariante Angelique, bem no nosso campo de visão, senta no parapeito da varanda do apartamento onde mora e com olhos fixamente na tela,  esboça um sorriso que dificilmente sai da memória, mesmo depois de muito tempo que o filme acaba –  eis que então Angelique mergulha para o fim, para a morte ou para uma porta de escape daquilo que a corroeu até aquela tragédia angustiante.

Estreando em seu primeiro longa, o grego Alexandros Avranas já é considerado um cineasta que nasceu pronto. Prontinho! Na verdade, o diretor utilizou como pano de fundo, a catastrófica crise econômica que recentemente assolou o país sem piedade até os dias de hoje e então canalizou o fantasma dessa crise e os empregou em forma de cinema. Na verdade se o intuito das cenas durante toda a projeção do filme parece convergir apenas para o choque gratuito, sua mensagem pura e livre de qualquer filtro, tem como fio condutor a proeza única de criticar, mesmo que a mensagem principal tenha força suficiente para derrubar tudo pela frente. O país, os governantes, a moradia, o desemprego; tudo aqui é bem preparado para uma rajada de metralhadora apontada cara do próprio pais onde a mensagem mais gritante que eu consegui extrair foi : “É assim mesmo que vocês querem que façamos as nossas famílias?”

Após o suicídio de Angelique, a família  precisa tocar o restante de suas vidas adiante, e encontrar meios para continuar a viver e sobreviver. É a partir daí que passamos a ter uma espécie de cumplicidade absurda com os integrantes. Entre uma visita ou outra de assistentes sociais que investigam o motivo de uma garota com onze anos de idade ter pulado assim ao encontro da morte, somos brindado com cenas que vão se revelando aos poucos, assim como um quebra cabeça estranho. E entre cafés e jantares familiares, tudo condiz para que esta seja uma família perfeita, mas que de tanta perfeição assim algo à  espreita dela dá um tom ironicamente surreal, tamanha a indiferença com que tudo vai se revelando.

Avranas não tem nenhuma pressa em destrinchar o roteiro aqui, simplesmente vamos conhecendo os integrantes daquela família na mesma medida que suas máscaras vão sendo reveladas ou quando vamos fazemos interligações com o grau de parentesco entre eles.  E é ainda no avanço dessa história que tudo vai se encaixando e fazendo sentido, mesmo que este mesmo sentido seja acompanhado de um nauseante desassossego, o que importa é que Alexandre Avranas sabe que está chocando com seu filme, mas tudo é transmitido de forma tão limpa que não há como enxergar um trabalho de altíssima qualidade, que não tem nenhuma função de entreter. E nós como cúmplices deste roteiro tão aflitivo, somos arrastados para os segredos mais obscuros e quase inacreditáveis daquela família e então, já munidos daquele peso, o que nos resta após um desfecho que é a grande cereja de um bolo tão atípico é voltar juntamente para a nossa zona de conforto.

Após o término de Miss Violence, fiquei imaginando como seria uma produção nacional nos mesmíssimos moldes. Será que sofreria censuras, repúdio, reconhecimento pelos cinemas de outros países? Eu não sei como seria tal recepção, mas fico muito curioso em saber, pois se há anos mostrando os problemas do Brasil pela frente em forma de cinema nunca foi garantia de atenção, apresenta-lo então de forma mascarada como fez Alexandros Avranas e como quer que nos comportemos os governantes e as autoridades, seria uma solução. Se não seria, então ao menos a qualidade do cinema ia melhorar mais. Bem mais.

MISS VIOLENCE (dir: Alexandro Avranas – 2013) – Grécia

Elenco:Themis Panou;  Eleni Roussinou; Reni Pittaki; Chloe Bolota; Maria Skoula; Maria Kallimani; Sissy Toumasi

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4 pensamentos sobre “MISS VIOLENCE

  1. Gostei muito do seu relato, mas filmes nacionais com uma perspectiva semelhante existem, claro, sem o mesmo fantástico desenvolvimento. Por exemplo, ‘Anjos do Sol’ é bem chocante neste aspecto, com menos intensidade também tem ‘Deserto Feliz’. A contrução de ‘Miss Violence’ é excepcional.

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  2. Sim Leticia, Me lembro de Anjos do Sol e também do Baixio das Bestas. Eles são apresentados de forma escancarada enquanto o Miss Violence tem a destreza de passar a mensagem de forma irônica, ou seja, de um jeito que tudo parece ser a coisa mais natural do mundo.

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