OFFSCREEN

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Por mais estranho que possa parecer, certos roteiros nos ganham justamente pela dose de fantasia que proporciona – seja ela uma fantasia absurdamente assumida, ou seja aquela questionável; aquela que teria um fundo mínimo que seja de razão e pé numa realidade concreta. O roteiro deste filme holandês Offscreen é bem interessante nesse quesito, porque apresenta a paranoia do seu personagem porém não isola aquilo como uma improbabilidade.

Temos como protagonista do filme um motorista de ônibus solitário que se separou recentemente da esposa. Tanta solidão faz dele um senhor estranho ao ponto de não querer dirigir nenhum ônibus que carregue qualquer tipo de propaganda. Para ele as propagandas enganam as pessoas, e as induz avidamente ao consumismo. Trabalhando na empresa há 36 anos, o Sr. Voerman se recusa a ter sua jornada de trabalho reduzida, mesmo que o valorde seu ordenado seja mantido.

Certa manhã, o homem entra num edifício em Amsterdam na posse de um revólver e manda todos saírem fazendo dois seguranças de reféns. Embora dando leves ares de perturbação, o Sr. Voerman não parece ameaçador e parece ter um propósito ali. Então, sem muita enrolação ele já vai direto ao plano: quer uma coletiva de imprensa com as emissoras de TV e exige a presença do presidente da Philips.

A partir desse momento, o filme se alterna em dois tempos; o primeiro mostra o homem no dia em que resolve chamar a atenção da mídia e por em prática seu plano e o segundo revela tudo que antecede a este dia, mostrando sua vida, seu trabalho, a relação familiar e seus encontros com Gerard Wesselinck – o presidente da Philips.É no período dessa amizade que o homem faz uma descoberta assustadora sobre os televisores widescreen.

Não há uma grande segredo para o espectador no roteiro de Offscreen, pois logo vamos entendendo tudo o que está acontecendo, mas é justamente a paranoia e a neurose de John Voerman a protestar contra as tvs com tela de cinema que nos leva a levantar nossas próprias neuroses pessoais nunca conseguindo isolar o fato como abstrato ou apenas uma mera e exagerada ficção. A coisa então fica mais complicada ainda quando sabemos se tratar de um caso baseado numa história curiosamente real.

Mediante a isso, vamos acrescentando elementos que cercam a própria vida de Voerman; devaneios, solidão, rejeição e tantos outros problemas que podem ou não ter contribuído para o surto de um homem que trabalhou a vida inteira honestamente. E junto com isso entra ainda toda a importância discursiva do “ver além do que se vê” – a percepção da realidade. É um pouco parecido com o que João Jardim e Walter Carvalho quiseram com o documentário Janela da Alma embora John Voerman não sofresse nenhum problema visual, mas havia algo no produto que o fazia ver além do sentido da visão.

Offscreen do holandês Pieter Kuijpers é um filme que pode decepcionar muito a quem lê a sinopse e assiste o filme na íntegra, pois por mais que a trama pudesse seguir por caminhos diferentes, com bastante movimentos e aquele desfecho tipicamente americano com explosões, heroísmo e tudo mais o foco aqui é na história real de John Voerman. E por contar isso da maneira fiel como aconteceu – ao menos eu penso que foi, é que o filme não tenha um bom reconhecimento do público. mas uma coisa é certa: se por um lado apresentar uma neurose maluca, dando vazão e espaço para ela, parece um mero filme de fantasia, por outro lado há bastante verdades no roteiro que são curiosamente levantadas quanto ao próprio consumismo, a propaganda para diversos lançamentos de produtos e a reação do público quanto a tudo isso. Mas Pieter Kuijpers não nos dá respostas; não há um diagnóstico médico, um viés científico de tudo. Ele apenas provoca e nos deixa a pensar, e a pensar.

Off Screen -2005 dir: Pieter Kuijpers  – Holanda/ Bélgica

Elenco: Jan Decleir; Jeroen Krabbé; Astrid Joonsten; Theu Boermans; Aat Ceelen

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